“Noé estava cansado do papel de
profeta da infelicidade e de sempre anunciar uma catástrofe que nunca vinha e
que ninguém levava a sério. Um dia, vestiu um velho saco e espalhou pó sobre a
cabeça. Este gesto só era permitido a quem pranteava um filho querido ou a
esposa. Vestindo a roupa da verdade, ator da dor, voltou para a cidade,
decidido a reverter em seu benefício a curiosidade, a malignidade e a
superstição dos moradores. Em pouco tempo, juntou-se a seu redor uma pequena
multidão curiosa e as perguntas começaram a surgir. Perguntaram se alguém tinha
morrido e quem era. Noé respondeu que muitos tinham morrido e que esses mortos
eram eles, o que provocou gargalhadas. Quando lhe perguntaram quando tinha
acontecido tal catástrofe, ele respondeu: amanhã. Aproveitando então a atenção
e a aflição dos ouvintes, Noé ergueu-se e, do alto de sua grandeza, começou a
falar: depois de amanhã, o dilúvio será algo que já aconteceu. E quando o
dilúvio tiver acontecido, tudo que é nunca terá existido. Quando o
dilúvio tiver arrastado tudo o que existe, tudo que tiver existido, será muito
tarde para lembrar, porque não haverá mais ninguém. Não haverá mais então
nenhuma diferença entre os mortos e os que os choram. Se eu vim aqui diante
de vocês, é para inverter o tempo, é para chorar hoje os mortos de amanhã.
Depois de amanhã, será tarde demais. Dito isso, voltou para casa, trocou de
roupa, tirou o pó que lhe cobria o rosto e foi para sua oficina. No decorrer da
tarde, um carpinteiro bateu a sua porta e lhe disse: deixa-me te ajudar a
construir a arca para que tudo aquilo se torne falso. Mais tarde, um
telhador juntou-se aos dois, dizendo: chove nas montanhas, deixem-me ajudá-los para
que tudo aquilo se torne falso.” [1]
[1]
O texto é citado em DUPUY, Jean-Pierre, Petite
métaphysique des tsunamis, Paris, Seuil, 2005 p.10. Dupuy tira essa citação
do livro de SIMONELLI,
Thierry, Günther Anders. De la désuetude de l´homme, Clichy, Éditions du Jasmin, 2004, pg. 84-85
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