30 de janeiro de 2012

O comportamento humano é parte do problema, mas também da solução para a crise ambiental


No universo da curiosidade sobre a relação homem-natureza, compartilho com vocês um trecho do texto de introdução do meu Trabalho de Conclusão de Curso apresentado no MBA em Gestão e Empreendedorismo Social na FIA ao final de 2011.
A dicotomia cartesiana entre homem e natureza é uma ideia específica da sociedade ocidental, não necessariamente partilhada por outras culturas. A maior parte dos povos do mundo não exterioriza a natureza dessa maneira. Ao contrário, considera o homem como parte da natureza (PRETTY apud MORAN, 2008, p. 27).
Branco (1995) afirma que o homem pertence à natureza tanto quanto – numa imagem que lhe parece apropriada – o embrião pertence ao ventre materno: originou-se dela e canaliza todos os seus recursos para as próprias funções e desenvolvimento, não lhe dando nada em troca. É seu dependente, mas não participa (pelo contrário, interfere) de sua estrutura e função normais. Será um simples embrião se conseguir sugar a natureza, permanentemente, de forma compatível, isto é, sem produzir desgastes significativos e irreversíveis; ao contrário, será um câncer, o qual se extinguirá com a extinção do hospedeiro.
Escultura de Kate MacDowell, artista plástica
(...)
Em termos de necessidades biológicas, considerando-se um fator temporal e evolutivo, o homem tem se tornado cada vez mais independente das contingências ambientais. Quanto à função de nutrição, é evidente que o homem precisa de alimento, mas ele é capaz de processar tecnologicamente os compostos químicos, o que o destaca das demais espécies. Em relação às funções de reprodução e proteção, o homem criou uma forma artificial de evolução, visto que ele se apropria do meio e transforma seus elementos necessários para sua vida e desenvolvimento (BRANCO, 1995).
Apesar disso, esse mesmo autor acrescenta que, além das necessidades básicas como ser vivo, a espécie humana possui, então, outras necessidades, relacionadas ao conforto individual e ao desenvolvimento coletivo ou social, o que corresponde à reivindicação extra e diversificada em relação às necessidades regulares de outras espécies, e também a ser suportada pelos recursos naturais. Assim, o homem é visto como um elemento perturbador do sistema em que nenhum ser vivo tem existência independente dos demais e do meio físico, visto que provoca alterações não espontâneas e que geram desbalanceamentos das relações materiais e energéticas dos ecossistemas.
Portanto, a visão dualística entre natureza e cultura não faz sentido na presente situação de modificações ambientais que comprometem de forma irreversível e dramática muitos ecossistemas. Dessa forma, faz-se necessária uma abordagem biocultural, como defendida por Moran (2008) e Moran e Ostrom (2009), considerando-se que as pessoas integram o meio ambiente e, da mesma forma, o meio ambiente as integra.

Encontro com botos no Rio Negro, Amazonas.
Fato é que não existe solução simples para a atual crise ambiental. O comportamento humano precisa ser visto não só como parte do problema, mas também como parte da solução, considerando-se inclusive a necessidade de reorganização social.

Referências:
Branco, S. M. (1995). Conflitos Conceituais nos Estudos sobre Meio Ambiente. Estudos Avançados, vol. 9 (23), p. 217-233.
Moran, E. F. (2008). Nós e a Natureza: uma introdução às relações homem-ambiente. São Paulo: Senac.
Moran, E. F.; Ostrom, E. (2009). Ecossistemas Florestais: interação homem-ambiente. São Paulo: Senac São Paulo, Edusp

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